À segunda vez, os neutrinos continuam mais rápidos que a luz

20-11-2011 09:52

Pela segunda vez, os neutrinos disparados a partir do acelerador de partículas do CERN, na Suíça, chegaram ao laboratório subterrâneo de Gran Sasso, em Itália, cerca de 60 nanossegundos mais rápido do que a velocidade da luz. O mistério das partículas subatómicas que podem contradizer Einstein continua.

A teoria especial da relatividade diz que acelerar qualquer objecto que tenha massa até à velocidade da luz exige uma quantidade impossível de energia — e pensa-se que os neutrinos têm massa, apesar de raramente interagirem com outra coisa qualquer. Mas a experiência internacional Opera relatou em Setembro resultados que causaram furor, ao pôr este princípio em causa. Por isso mesmo, precisavam de mais verificações.

Os feixes de partículas subatómicas disparados do acelerador de partículas do CERN foram modificados para eliminar uma possível fonte de erro nos cálculos. O disparo tem de percorrer os 730 quilómetros através da crosta terrestre, atravessando as montanhas dos Apeninos, para atingir um alvo especial no laboratório de Gran Sasso, instalado numa mina desactivada, onde se espera detectar a interacção dos neutrinos com um material como o chumbo.

Mas desta feita, do CERN foram disparados feixes de protões de apenas três nanossegundos, muito mais curtos do que na primeira experiência. É que, da primeira vez, alguns eram muito mais longos do que os 60 nanossegundos que os neutrinos pareciam levar de vantagem sobre a velocidade da luz, e isso poderia produzir erros na leitura da sequência com que os neutrinos atingiam o detector Opera instalado em Gran Sasso.

Na nova experiência, produziram-se muito menos detecções de neutrinos — apenas 20, em comparação com as 15 mil de análises anteriores. Mas isto possibilitou medições muito mais precisas.
“As medições parecem-nos robustas. Recebemos muitas críticas, mas conseguimos lidar com a maior parte elas”, disse ao site da revista "New Scientist" Luca Stanco, do Instituto de Física Nacional de Física Nuclear, em Pádua, que opera o laboratório de Gran Sasso.

Em Setembro, Stanco tinha-se recusado a assinar o artigo colocado no site ArXiv, onde os cientistas de física e astrofísica divulgam as suas descobertas. Desta vez, já pôs lá o seu nome, diz a "New Scientist".
A equipa, que disponibilizou os seus resultados ontem na ArXiv, submeteu também um artigo para publicação numa revista científica com revisão pelos pares, a "Journal of High Energy Physics" — o “padrão-ouro” para uma descoberta ser aceite na comunidade científica.

Quer isto dizer que é oficial, alguém conseguiu provar que Einstein errou? Nem por sombras.
O Instituto Italiano de Física Nuclear estimula abertamente outros cientistas a demonstrar que podem replicar os resultados da experiência Opera, e o laboratório Fermilab (uma espécie de CERN norte-americano) está a tentar fazer exactamente isso). O CERN e a Opera vão continuar também a fazer experiências, para verificar se não há falhas nas contas ou no equipamento.

 

Fonte: Jornal Público

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