Descoberto possível “calcanhar de Aquiles” universal do parasita da malária

12-11-2011 09:33
 
Investigadores britânicos descobriram, ao que tudo indica, a porta molecular que a espécie mais letal do parasita da malária precisa absolutamente de abrir para conseguir infectar os glóbulos vermelhos humanos.

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O mais surpreendente, inclusive para equipa do Wellcome Trust Sanger Institute, no Reino Unido, que hoje anuncia os resultados na revista Nature, é tratar-se sempre da mesma e única molécula de superfície dos glóbulos vermelhos, seja qual for a estirpe do parasita Plasmodium falciparum em causa. Sem essa porta molecular, o parasita, actualmente responsável pela morte de cerca de um milhão de pessoas por ano, não consegue infectar as suas células-alvo humanas.

“Os nossos resultados foram imprevistos e mudaram completamente a nossa maneira de ver o processo de invasão”, diz Gavin Wright, um dos líderes da equipa, em comunicado da sua instituição. “As nossas pesquisas parecem ter revelado um calcanhar de Aquiles na maneira como o parasita invade os nossos glóbulos vermelhos.”

O Plasmodium falciparum, depois de introduzido no fluxo sanguíneo de uma pessoa por um mosquito infectado, começa por invadir as células do fígado. Só numa segunda fase é que passa a infectar os glóbulos vermelhos dessa pessoa – e é aí que provoca os sintomas e a mortalidade associados à malária. Há anos que os especialistas tentam desenvolver vacinas para impedir essa irrupção do parasita nas células sanguíneas humanas, mas até agora sem sucesso.

Acontece que existem diversas estirpes do parasita e até aqui nunca tinha sido possível identificar nenhuma molécula, à superfície dos glóbulos vermelhos, que fosse mesmo essencial ao processo de infecção celular. Foi exactamente essa a descoberta agora anunciada: afinal, existe um único receptor que é indispensável para que o parasita se consiga “agarrar” a estas células e penetrá-las.

A técnica que permitiu identificar essa molécula receptora foi desenvolvida pelos próprios cientistas e tem por nome AVEXIS (Avidity-based Extracellular Interaction Screen). Permite justamente detectar interacções entre os receptores presentes à superfície das células e as moléculas que se ligam especificamente a esse receptor. Tal como quando uma chave encaixa numa fechadura, é esta interacção que abre a “porta” das células à penetração de substâncias ou microrganismos vindos do exterior.

Uma vez identificado, à superfície dos glóbulos vermelhos, o receptor envolvido na interacção com o parasita da malária, os cientistas mostraram que quando impediam essa interacção, o parasita ficava à porta das células, totalmente incapaz de as infectar. E mais: o mesmo efeito verificou-se com todas as estirpes de Plasmodium falciparum que testaram – o que sugere fortemente que esse receptor é de facto a porta de entrada universal, a via de passagem obrigatória dos parasitas desta espécie, sem a qual não conseguem provocar a doença.

“Ao identificarmos um receptor único que parece ser essencial para os parasitas invadirem os glóbulos vermelhos humanos, também identificámos uma via óbvia e muito excitante para o desenvolvimento de vacinas”, diz Julian Rayner, outro líder da equipa. “A nossa esperança é que este trabalho dê origem a uma vacina eficaz com base na proteína do parasita [que se liga ao receptor].”

 

Fonte/adaptado de: Jornal Público

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