Universo em gelo e céu sem estrelas: revelação abala bases da cosmologia

05-10-2011 11:57

A descoberta da aceleração da expansão do universo através da observação de supernovas valeu o 110º prémio Nobel da Física a três cientistas norte-americanos – Saul Perlmutter, Adam G. Riess e Brian P. Schmidt – das universidades da Califórnia, Baltimore e Austrália, respectivamente.

Já, segundo escrevera o poeta Robert Frost (1920), “alguns dizem que o mundo acabará em fogo, outros em gelo”. O trabalho de investigação do trio galardoado vem refutar a Lei da Gravitação (de Isaac Newton) – que defende a ideia de que o universo se expande cada vez mais devagar. A descoberta revela que, consequentemente, "se a expansão continuar a acelerar, o universo acabará em gelo", referiram os premiados à comissão do Prémio Nobel, tal como se lê na página oficial.

 

 
Em entrevista ao jornal «Ciência Hoje», Ana Mourão, investigadora do Centro Multidisciplinar de Astrofísica (CENTRA) e do Departamento de Física do Instituto Superior Técnico (IST), explicou que “há já mais de 20 anos que se observa a luz das supernovas” (velas cosmológicas), ou seja, “a luz decorrente de explosões energéticas, caracterizada pela morte de estrelas quando estas arrebentam”, para perceber a que distância estão, com a ajuda de telescópios. 

“Estes fenómenos astrofísicos têm uma luminosidade bem conhecida, fixa e determinada" e é possível perceber a sua distância "através da intensidade da luz detectada". Adiantou também que “a luz da explosão é tão intensa que se consegue medir mesmo estando muito longe e se esta luz demorar a chegar, ou seja, for menos brilhante do que se esperava, isto significa que estão mais longe e para tal, o universo teve de se expandir”, descreveu a investigadora do CENTRA.

A docente do IST lembrou ainda que durante muito tempo acreditou-se que, na sequência do Big Bang, a expansão do universo ocorria de forma desacelerada. “Com a explosão tudo se afastou, mas devido à presença da força gravitacional, mantinha-se em desaceleração, podendo mesmo colapsar (encolher)”. No entanto, percebendo que as supernovas são menos brilhantes, significa que estão mais longe, mais afastadas do que se pensava; logo, “o universo está a expandir-se mais rapidamente”.
 


 
 
“Já não há estrelas no céu!” A frase que dá o mote à música de Rui Veloso poderá ser outra realidade, daqui por “muitos milhões de anos”, porque “tudo irá afastar-se”, disse Ana Mourão assinalando ainda que “a distância entre os objectos do universo está a aumentar”. E acrescentou: “Agora, com o estudo das supernovas, concluiu-se que o universo está em expansão e há uma energia superior à gravitacional”.

"Não conhecemos a razão desta aceleração e deixamos de perceber 75 por cento da constituição do universo”, continuou, concluindo que “esta descoberta vem revolucionar as bases da cosmologia”.

Ana Maria Mourão tem vindo a desenvolver diferentes projectos científicos na área, como por exemplo, «Cosmologia com Supernovas» e «Propriedades de galáxias hospedeiras de supernovas e raios gamma e implicações em cosmologia» e liderou a equipa composta por dois portugueses – uma estudante de licenciatura, que desenvolveu o projecto de final de curso com Saul Perlmutter, e um aluno que já tinha terminado – que trabalharam directamente com o agora Prémio Nobel, em Berkeley.

 
Os premiados

Saul Perlmutter tem 52 anos e é o responsável pelo projecto «The Supernova Cosmology», desenvolvido pela Lawrence Berkeley National Laboratory da Universidade da Califórnia, a funcionar em Berkeley, nos Estados Unidos.

Em entrevista telefónica à comissão do Prémio Nobel, Adam G. Riess avançou que estava a dormir quando recebeu a notícia. E contou que “no momento em que encontrou qualquer coisa pensou que tinha cometido um erro” e, decidindo perceber qual seria, “fez novas medições que o levaram à descoberta”.

Brian P. Schmidt, de 44 anos, é o responsável pela equipa de investigação «High-z», na Universidade da Austrália, e Adam Riess, 42 anos, é astrónomo na Universidade Johns Hopkins e no Instituto de Ciência «Space Telescope», que funciona em Baltimore.
 
Fonte/Adaptado de: Ciência Hoje
 
 

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