A Química da Vida

22-03-2011 14:38

Amostras esquecidas de experiência de 1958 revelam que Stanley Miller conseguiu recriar ‘sopa primordial’ mais rica do que ele podia suspeitar. Vulcões ajudaram à vida

Em 1953, o jovem bioquímico norte-americano Stanley Miller lembrou-se de recriar a primitiva atmosfera terrestre de há quatro mil milhões de anos, quando ainda não havia vida no planeta. Depois simulou as descargas eléctricas dos relâmpagos e passados alguns dias verificou entusiasmado que se tinham desenvolvido nas campânulas uma série de aminoácidos, os tijolos químicos do ADN (onde se encontra armazenada a informação genética) e da vida. A descoberta deu a volta ao mundo e incendiou imaginações. Agora um grupo de antigos alunos de Miller fez uma descoberta espantosa: amostras intactas de uma experiência posterior de Miller indicam que ele conseguiu produzir em 1958 uma “sopa primordial” mais rica ainda do que ele próprio conseguiu perceber, porque não tinha então as técnicas necessárias para isso.

 

Os resultados da nova análise das amostras de Stanley Miller, de 1958, que são publicados hoje na revista Proceedings ofthe National Academy of Sciences ( PNAS), download do artigo completo AQUI, sugerem que o vulcanismo – juntamente com as descargas eléctricas das tempestades – teve mesmo um papel decisivo no surgimento da vida na Terra. Abre-se agora a porta a novas experiências, que os ex-alunos de Miller já estão a preparar.

Depois daqueles resultados pioneiros, que mostravam que a partir de uma mão-cheia de gases e de umas quantas descargas eléctricas era possível produzir os constituintes básicos da vida, Stanley Miller continuou a fazer investigação na mesma linha. Em 1958, aos três gases que tinha usado em 1953 – vapor de água, amoníaco e metano – acrescentou sulfureto de hidrogénio, que é produzido durante as erupções vulcânicas. Mas depois de as analisar, o bioquímico selou e armazenou as amostras resultantes num canto do laboratório. Só muito mais tarde, em 2007, pouco antes de morrer, se lembrou de as mencionar aos seus antigos alunos, entre os quais estavam Eric Parker e Jeffrey Bada, o último da mesma universidade da Califórnia do seu antigo professor. E os dois resolveram olhar para elas. A análise dessas velhas amostras mostrou que a mistura de gases utilizada em 1958 estava muito mais próxima da composição da atmosfera terrestre primitiva, de acordo com a visão mais recente dos geoquímicos. E nessa sopa primordial assim obtida, a mistura de compostos orgânicos também “é muito mais rica” do que a obtida na primeira e mais famosa experiência de 1953, como explica o grupo de Jeffrey Bada no artigo da PNAS.

Com os novos dados, a equipa quer repetir este ano a experiência, usando equipamentos mais sofisticados, e esperando assim ir ainda mais longe. Foi uma sucessão de coincidências que levou Stanley Miller a fazer a primeira experiência que deu origem à tal “sopa primordial”, como ficou conhecida a mistura de compostos orgânicos obtida na sua experiência pioneira. O jovem bioquímico tinha ficado sem o orientador inicial, que mudara de universidade e, ao ler a teoria do geoquímico Harold Urey, da Universidade de Chicago, sobre a composição da atmosfera terrestre primitiva por três gases e sem oxigénio, lembrou-se de lhe propor a sua recriação. Urey não ficou muito convencido, mas aceitou. O resultado foi publicado na Science, em 1953.

 

Adaptado de: Diário de Notícias, Ciência

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