Para onde foi a anti-matéria?

09-09-2011 09:44

O LHCb e a teoria do espelho

Por Marlene Moura (Texto e Fotos), em Genebra com o apoio da Ciência Viva


        A imagem reflectida alude à anti-matéria por oposição à matéria.
 

Na pequena cidade de Meyrin, situada no cantão de Genebra, ocorrem colisões de protões de alta velocidade (muito próxima à da velocidade da luz), a cada 50 nanossegundos, numa extensão de 27 quilómetros de perímetro e a cem metros de profundidade, que abrange ainda uma pequena extensão do território francês. Aqui, fica a Organização Europeia para a Física de Partículas (CERN) e, com a ajuda dos detectores do Grande Colisador de Hadrões (LHC), é onde se tenta responder a uma série de perguntas que possam ajudar a perceber o mundo e a sua origem.

Após o Big Bang, surgiram os primeiros átomos e as primeiras galáxias… Hoje, somos feitos de velhas partículas com mais de 13,7 mil milhões de anos. Os aceleradores de partículas do CERN reúnem as condições para recriar o momento que prevalecia logo após este acontecimento e poderá explicar o estado actual do nosso universo.

 

Este gigante laboratório de partículas, o maior do mundo, reúne várias experiências ao mesmo tempo e cada uma envolve pelo menos duas mil pessoas. O LHCb é uma das quatro maiores e foi concebido para estudar assimetrias entre matéria e anti-matéria, a partir de partículas conhecidas como ‘quarks da beleza’ (no LHCb, o “b” é usado para definir beleza).

E “se não existe um anti-universo é porque as forças não actuam da mesma forma entre partículas e anti-partículas”, referem os físicos. Os investigadores aventam que a matéria e anti-matéria existiam em quantidades idênticas durante o Big Bang. No entanto, vivemos agora num universo composto apenas por matéria.

Mas, para onde foi a anti-matéria? Os cientistas até agora apenas foram capazes de encontrar pequenos vestígios de anti-matéria no interior de algumas estrelas e o trabalho do Grande Colisador de Hadrões (LHC- Large Hadron Colider) é precisamente seguir-lhe o rasto.

“A anti-matéria é igual à matéria, mas tem carga oposta”, funcionando como um espelho, referiu Sofia Andringa, investigadora do grande ‘agregador’ português de Física Experimental (LIP). Aliás, o próprio logótipo do LHCb é a sua própria imagem reflectida, como alusão à esta grande questão do universo. “Criar anti-matéria é fácil, mas pará-la e mantê-la é difícil. O ideal seria conseguir uma garrafa cheia para estudá-la”, continuou a investigadora.


        A entrada é restrita e        submetida a um scan de retina.
 
Altamente radioactivo

Os visitantes portugueses que se encontram, ao longo desta semana, no CERN não dispensaram a visita a esta enorme experiência. No entanto, o périplo foi acima dos cem metros, porque não é possível chegar perto; caso contrário, descer até lá podia “doer um bocadinho”, referiu Pedro Abreu, investigador do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP), a acompanhar o grupo em formação e os alunos de Aveiro vencedores do concurso «Se eu fosse cientista….». O local onde decorre a experiência é altamente radioactivo e “quando é necessário retirar alguma coisa de lá de baixo, tem de ficar a arrefecer alguns meses”, sustentou ainda Sofia Andringa.

A entrada para a área de trabalho – outra que não a sala do controlo (a distância) – é uma zona de radiação vigiada e o acesso só é permitido a pessoal autorizado e após submetido a um scan de retina.

Nos anos 1960, Meyrin transformou-se radicalmente passando de uma aldeia de três mil habitantes a uma cidade de mais de 14 mil, aquando da instalação de grandes companhia internacionais e da construção e exploração do SPS do CERN.
 

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