Ratos infectados por Toxoplasma perdem medo do predador

19-03-2012 13:39
Estudo da Fundação Champalimaud descobre o papel do parasita neste fenómeno

Cristina Afonso, da Fundação Champalimaud, publicou um estudo na revista PLoS ONE, onde revela que quando um animal é infectado por Toxoplasma sofre alterações no seu comportamento que podem aumentar a transmissão deste parasita. O Toxoplasma aloja-se no cérebro e mantém-se dormente dentro de umas estruturas chamadas cistos, continuando o seu ciclo de vida quando o animal onde se aloja é comido por outro predador.

 

O estudo original, que serviu de base ao trabalho da equipa de Cristina Afonso

 

“Normalmente os ratinhos movem-se pouco de cada vez, já os animais infectados movimentam-se ininterruptamente durante períodos de tempo grandes”, explica a investigadora ao Ciência Hoje. Para além disso, a infecção por Toxoplasma provoca no hospedeiro roedor uma “redução das respostas de medo e de avaliação do risco ambiental”, isto é, os animais perdem comportamentos cautelosos. Estas duas observações podem explicar o aumento, na natureza, da probabilidade de captura de animais infectados. “Não é difícil imaginar que um animal que se movimenta muito e não é cauteloso tenha uma maior probabilidade de ser detectado e capturado por predadores”, sublinha Cristina Afonso.

A equipa de investigadores que conduziu este estudo concluiu também que não existe uma acumulação de cistos parasitários numa região específica do cérebro mas existe uma relação entre a presença simultânea de cistos em determinadas áreas cerebrais e os comportamentos alterados. Isto quer dizer que “alguns comportamentos estão relacionados com a presença de cistos em determinadas áreas do cérebro” e “será a localização dos parasitas nestes circuitos que produzem estas alterações comportamentais”.

Este estudo mostra como uma infeção com um agente patogénico, neste caso um parasita, pode produzir alterações comportamentais no seu hospedeiro. Assim, há que ter em conta que “a resposta dos organismos a uma infeção pode ser bem mais complexa do que apenas combater localmente a infeção pois o organismo infectado irá responder como um todo”, explica Cristina Afonso. Por outro lado, “o facto de ser possível um parasita manipular um hospedeiro, que é um organismo muitíssimo mais complexo, é verdadeiramente interessante”, acrescenta. Segundo Cristina Afonso, a ideia para este trabalho surgiu após ter sido publicado um estudo no qual era descrita uma modificação do comportamento normal de ratinhos infectados com o parasita Toxoplasma. Este trabalho descrevia como ratinhos infectados (hospedeiros intermédios) perdiam o medo do seu predador, o gato. Acontece que o gato é o hospedeiro definitivo do parasita e foi sugerido que esta modificação do comportamento contribuiria para permitir a captura mais fácil do roedor infectado e assim assegurar uma transmissão mais fácil para o hospedeiro definitivo. Mas um outro estudo demonstrou que roedores selvagens infectados por Toxoplasma eram os primeiros a ser capturados em armadilhas. Isto sugeria que existem outros comportamentos que estão alterados em animais infectados e que não estão relacionados com a perda de medo do predador. Assim, a equipa da Fundação Champalimaud achou “importante descobrir que outros comportamentos eram alterados em consequência da infeção e que papel teria o parasita neste fenómeno”.


O próximo passo na investigação é agora “saber como é que estas alterações comportamentais são produzidas, tentar perceber qual o mecanismo envolvido”, avança a cientista.
 
Fonte:Adaptado de: Ciência Hoje

 

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